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Doença pneumocócica:
lidando com mais sorotipos — dois olhares, uma agenda comum

Participantes: Prof. Dr. Marco Sáfadi,
Prof. Dr. Daniel Jarovsky, Prof. Dr. Otávio Rizzi Coelho Filho

A doença pneumocócica (DP) continua a ser uma causa significativa de morbimortalidade global, com impacto clínico e econômico substancial. À medida que avançamos na compreensão da sua epidemiologia e da imunologia das vacinas, torna-se claro que a estratégia de prevenção deve ser integrada, abrangendo desde a infância até a idade adulta e os grupos de risco mais vulneráveis às complicações da doença.

A introdução das vacinas pneumocócicas conjugadas (PCVs) em programas de imunização em lactentes reduziu de forma relevante as diversas formas de doença pneumocócica causadas por sorotipos vacinais, contribuindo também para redução de taxas de incidência da doença em grupos etários não vacinados, incluindo adultos de maior idade – proteção indireta (herd effect) – às custas da redução nas taxas de colonização pelos sorotipos vacinais entre as crianças vacinadas e, desta forma, reduzindo as taxas de transmissão a outros grupos etários. Com o tempo, porém, observou-se ascensão rápida de sorotipos não-vacinais, sobretudo em adultos, limitando o impacto destes programas e impulsionando a evolução para vacinas pneumocócicas de maior valência, contemplando os novos sorotipos prevalentes implicados no aumento de taxas de doença.

Entre os sorotipos vacinais observou-se que o sorotipo 3 possui um mecanismo particular de produção de cápsula que o torna mais resistente à depuração imune e menos imunogênico do que outros sorotipos vacinais, mantendo-se como importante causa de pneumonia e DP (doença pneumocócica) invasiva em crianças e adultos. Além disso, apesar de incluído nas PCV7/PCV13, o sorotipo 4 (com variante capsular) tem sido implicado em surtos de DP (doença pneumocócica) invasiva entre adultos que vivem em condições precárias. A persistência desses sorotipos em indivíduos de alto risco pode também refletir fatores do hospedeiro que prejudicam a produção de anticorpos e/ou a depuração bacteriana mediada por anticorpos.

Estas lições aprendidas com as PCVs mostram a necessidade de atenção ao comportamento da doença pneumocócica e seus sorotipos, aliada a uma rigorosa vigilância epidemiológica. Em cenários de substituição expressiva de sorotipos, o ganho adicional de vacinas com valências maiores no calendário infantil pode controlar a transmissão e sustentar a queda nas taxas de incidência na população.

O olhar para o paciente adulto:

A DP (doença pneumocócica) no adulto está associada a desfechos graves, incluindo hospitalização, mortalidade e sequelas funcionais e cognitivas. Evidências recentes mostram que a pneumonia pneumocócica está associada a um aumento significativo de eventos cardiovasculares agudos, como infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico, especialmente nos primeiros 30 dias após a infecção. Cortes de pacientes com pneumonia comunitária demonstram piora funcional e cognitiva sustentada, reforçando que a prevenção da pneumonia em idosos é fundamental para evitar desfechos graves e complicações.

Estudos observacionais e meta-análises indicam que a vacinação pneumocócica, especialmente com vacinas conjugadas como a PCV20, está associada à redução de hospitalizações por pneumonia, eventos cardíacos e mortalidade geral em idosos.

A vacinação pneumocócica é recomendada como estratégia complementar na prevenção cardiovascular, especialmente em populações de alto risco, como pacientes com doenças crônicas (diabetes, DPOC, cardiopatias). O American College of Cardiology recomenda a imunização pneumocócica em pacientes com doença coronariana crônica, destacando o impacto na redução de eventos cardiovasculares e mortalidade.

Vacinas conjugadas de maior valência (PCV15, PCV20, PCV21) aprovadas pelo FDA e recomendadas pelo Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP) dos EUA ampliam a proteção contra sorotipos circulantes, contribuem para o controle da resistência antimicrobiana e reduzem a carga sobre os sistemas de saúde. A substituição de sorotipos é esperada e exige ajuste dinâmico das estratégias vacinais.

Vinte anos de PCVs mudaram a história da doença pneumocócica. A substituição de sorotipos não é um fracasso da estratégia, mas um sinal de que devemos seguir ajustando o alvo. A resposta é dinâmica: valências maiores quando necessário, alocação por risco/idade, simplicidade operacional e ponte pediatria–adulto. Assim, prevenimos hospitalizações, mortalidade e, potencialmente, eventos cardiovasculares — uma agenda comum para toda a vida.

A atualização constante das vacinas, o monitoramento epidemiológico e a integração da imunização em estratégias mais amplas de prevenção são fundamentais para maximizar o impacto na saúde pública. Como médicos, temos o papel de liderar essa agenda, assegurando que a vacinação pneumocócica seja reconhecida não apenas como uma medida contra infecções, mas como um pilar da medicina preventiva moderna.

Referências bibliográficas:

  1. Ladhani SN, Collins S, Djennad A, et al. Rapid increase in non-vaccine serotypes causing invasive pneumococcal disease in England and Wales, 2000−17: a prospective national observational cohort study. Lancet Infect Dis. 2018 Apr;18(4):441−451. doi: 10.1016/S1473−3099(18)30052−5.
  2. Campling J, Vyse A, Liu HH, et al. A review of evidence for pneumococcal vaccination in adults at increased risk of pneumococcal disease: risk group definitions and optimization of vaccination coverage in the United Kingdom. Expert Rev Vaccines. 2023 Jan-Dec;22(1):785−800. doi: 10.1080/14760584.2023.2256394.
  3. LaFon D. Evaluation of efficacy and effectiveness across the pneumococcal conjugate vaccine era, Human Vaccines & Immunotherapeutics, 2025. 21:1, 2491855, DOI: 10.1080/21645515.2025.2491855
  4. Ozisik, L. The New Era of Pneumococcal Vaccination in Adults: What Is Next? Vaccines 2025, 13, 498. https://doi.org/10.3390/vaccines13050498.
  5. Marra F, Zhang A, Gillman E, et al. The protective effect of pneumococcal vaccination on cardiovascular disease in adults: A systematic review and meta-analysis. Int J Infect Dis. 2020 Oct;99:204−213. doi: 10.1016/j.ijid.2020.07.038.
  6. Kobayashi M, Leidner AJ, et al. Expanded Recommendations for Use of Pneumococcal Conjugate Vaccines Among Adults Aged ≥50 Years: Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices – United States, 2024. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2025 Jan 9;74(1):1−8. doi: 10.15585/mmwr.mm7401a1.

  1. Qual das alternativas expressa de forma mais correta os benefícios esperados da vacinação pneumocócica conjugada (PCV) em adultos/idosos?

  1. Homem, 72 anos, coronariopata, internado por pneumonia pneumocócica há 9 meses. Histórico vacinal: PCV13 há 6 anos e vacina polissacarídica 23V (PPV23) há 5 anos. A vigilância local mostra aumento de 22F/33F/8 e persistência de sorotipo 3. Qual a melhor estratégia agora?

Participantes

COORDENADOR CIENTÍFICO E MODERADOR

Prof. Dr. Marco Aurélio Sáfadi
CRM 54792 SP
Diretor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria

ESPECIALISTA

Prof. Dr. Daniel Jarovsky
CRM 140688 SP
Pediatra e infectologista.
Vice-Presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Prof. Instrutor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Prof. Dr. Otávio Rizzi Coelho Filho
CRM 109063 SP
Professor Associado Livre Docente de Cardiologia da UNICAMP
Chefe da Disciplina de Cardiologia – UNICAMP

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Moderador: Prof. Dr. Marco Sáfadi
Dr. Renato Kfouri
Prof. Dra. Rosana Richtmann

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Moderador: Prof. Dr. Marco Sáfadi
Profa. Dra. Cecilia Roteli-Martins
Profa. Dra. Rosemeri Maurici

Conclusão

Coordenador científico: Prof. Dr. Marco Sáfadi

As opiniões e pontos de vista expressos não representam necessariamente a visão da Medscape, seus editores, consultores ou anunciantes.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: O texto de conclusão propõe comunicação centrada no paciente para enfrentar hesitação: recomendação médica forte, escuta qualificada, apresentação de evidências e oportunidade (coadministração e registro no ato). Postura neutra (A) e delegação passiva (B) reduzem adesão; apelos ao medo (D) pioram confiança e podem aumentar resistência.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: A vacinação materna visa proteger o lactente, e deve ser administrada durante a gestação para permitir transferência transplacentária adequada de anticorpos. Assim, vacinar já às 29 semanas está dentro da janela programática e antecipa proteção do recém-nascido no início da vida.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: Em adultos/idosos de alto risco que já receberam PCV13 + PPV23, a opção de uso da PCV20 fornece valência ampliada exatamente sobre os sorotipos emergentes (p. ex., 22F/33F/8) e mantém a vantagem T-dependente dos conjugados. Como o intervalo desde a última pneumocócica é >1 ano, não há restrição temporal. Em cenários atuais, não se recomenda rotineiramente nova PPV23 após PCV20, o que também simplifica o esquema. As opções A e D geram complexidade e reatogenicidade extras com ganho incerto; a B perde a oportunidade de ampliar proteção frente ao perfil epidemiológico de sorotipos prevalentes no local.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: Intervenções multicomponentes (oferta ativa e oportunística, recuperação de faltosos com lembretes, recomendação clara do profissional e redução de barreiras logísticas) superam ações isoladas e aumentam consistentemente a cobertura.

Resposta incorreta

Resposta correta: D
Justificativa: Em adultos e idosos, os eixos influenza, pneumococo, VSR, COVID-19 e zóster concentram o maior potencial de reduzir hospitalizações, complicações e óbitos, com dTpa (tétano/difteria/coqueluche) e hepatites como estratégias transversais conforme risco clínico/ocupacional. Essas prioridades estão alinhadas ao enfoque de curso de vida e às recomendações de calendários de adultos/idosos, porque se concentram nas infecções que mais geram carga de doença grave nessas faixas etárias e para as quais há vacinas com efetividade comprovada disponíveis em cenários do mundo real.

Resposta incorreta

Resposta correta: B
Justificativa: A recomendação da abordagem oportunística, com avaliação da carteira e oferta de vacinas em todo contato assistencial, ajustando sazonalidade e reforços às diretrizes, é sustentada por evidências de efetividade programática: A OMS (IA2030) e a OPAS orientam reduzir oportunidades perdidas de vacinação, instituindo checagem sistemática em cada encontro e oferta ativa de doses pendentes; essa estratégia é central no modelo de vacinação ao longo da vida e integra pontos de contato em atenção primária, consultas por intercorrências e hospital/ambulatórios. A alternativa B também garante conformidade com calendários nacionais (PNI) e sociedades científicas (p.ex., SBP, SBI, SBIm), que organizam reforços e sazonalidade no cuidado rotineiro.

Resposta incorreta

Resposta correta: B
Justificativa: Em idade ≥75 anos com comorbidades, a oportunidade é crítica. Levando em conta a sazonalidade dos vírus VSR e influenza, a coadministração é aceitável e otimiza cobertura; pode aumentar reatogenicidade, mas sem perda clínica relevante de efetividade.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: A vacinação pneumocócica está associada à redução de hospitalizações por pneumonia, mortalidade geral e eventos cardiovasculares em idosos. Estudos de coorte e meta-análises mostram que idosos vacinados com PCV13 ou PPSV23 apresentam menor risco de hospitalização por pneumonia e redução significativa de mortalidade por todas as causas, além de menor incidência de infarto agudo do miocárdio. A justificativa biológica para esse efeito inclui a prevenção da descompensação inflamatória sistêmica desencadeada pela pneumonia, que pode precipitar eventos cardiovasculares agudos, como ruptura de placas ateroscleróticas e arritmias.

Resposta incorreta

Resposta correta: D
Justificativa: Integrar evidências locais de carga de doença e epidemiologia (como sorotipos e sazonalidade), recomendações independentes do Grupo Técnico Assessor Nacional de Imunização (NITAG), e alinhar-se para expandir plataformas de imunização além do primeiro ano de vida, permite maximizar o impacto populacional, garantir relevância epidemiológica e promover equidade na cobertura vacinal. Opções A, B e D ignoram esses pilares.

Resposta correta

Resposta incorreta

Resposta correta: B
Justificativa: Estratégias centradas no paciente — escuta ativa, empatia e validação das preocupações — aliadas à apresentação de dados claros e exemplos práticos, aumentam a confiança e a adesão, além de manter a vacinação como tema recorrente nas consultas

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