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Vírus Sincicial Respiratório: Antes, uma doença da infância. Hoje, uma ameaça sazonal em todas as idades

Participantes: Prof. Dr. Marco Sáfadi,
Profa. Dra. Cecilia Roteli, Profa. Dra. Rosemeri Maurici

O vírus sincicial respiratório (VSR) é uma das principais causas de infecção do trato respiratório inferior (ITRI) em lactentes e um importante agente de doença respiratória em adultos mais velhos. Estimativas globais indicam que, em crianças <5 anos, o VSR esteve associado a aproximadamente 101.400 óbitos em 2019 (2% de todas as mortes infantis), com 46% ocorrendo nos primeiros 5 meses de vida; anualmente, ocorrem cerca de 33 milhões de episódios de ITRI por VSR e 3,6 milhões de hospitalizações nessa faixa etária. A maioria dos óbitos em países de baixa e média renda ocorre na comunidade, sem que haja a possibilidade de acesso a cuidados hospitalares. Em lactentes, a primo-infecção costuma ocorrer já no primeiro ano de vida; período de alta vulnerabilidade para as formas mais críticas de doença, particularmente quando a infecção ocorre nos primeiros meses de vida. A sazonalidade é marcante em países com climas temperados (picos no outono–inverno por ~5 meses) e mais variável em regiões subtropicais e equatoriais. Além do impacto agudo imediato (bronquiolite/pneumonia, hipoxemia, com necessidade de hospitalizações, suporte ventilatório e admissões em unidades de terapia intensiva), a ITRI por VSR em início de vida associa-se ainda a desfechos respiratórios de longo prazo (sibilância recorrente, possível função pulmonar comprometida).

Prevenção em lactentes: vacinação materna e anticorpos monoclonais de ação prolongada.

A OMS (SAGE/2024; posição 2025) recomenda a incorporação das novas estratégias de prevenção nos lactentes por duas vias: (1) vacinação materna contra VSR (vacina RSVpreF) durante a gestação, visando transferência transplacentária de anticorpos; e/ou (2) uso de anticorpos monoclonais de ação prolongada administrados ao lactente logo ao nascer. O objetivo precípuo das estratégias de imunização não é impedir infecção, mas sim reduzir as formas sintomáticas da doença e suas complicações (incluindo os desfechos mais graves como a hospitalização, ITRI grave, óbito).

No mundo real, diversos estudos realizados em países que incorporaram estas estratégias de imunização comprovaram a efetividade e a segurança tanto da vacinação materna como dos anticorpos monoclonais de ação prolongada para prevenção de doença em lactentes, com redução dramática das taxas de hospitalização tanto entre os bebês cujas mães foram vacinadas como em bebês imunizados com uma dose dos anticorpos monoclonais.

Neste contexto, a decisão do Ministério da Saúde do Brasil pela incorporação da vacinação materna de VSR a partir de novembro de 2025 representa um importante passo no controle das formas graves de doença causada pelo VSR nos recém-nascidos e lactentes jovens, com expectativa de redução de hospitalizações, admissões em UTIs, sequelas e mortalidade relacionadas à infecção pelo VSR nos primeiros meses de vida. Essa medida sinaliza o fortalecimento das políticas nacionais de imunização e alinhamento com evidências recentes que demonstram eficácia e segurança da vacinação materna contra o VSR, com a perspectiva concreta de reduzir desigualdades em saúde e promover maior equidade para todos os recém-nascidos brasileiros.

Carga da doença pelo VSR em idosos e evidência de efetividade da vacinação para prevenção de desfechos graves.

Em adultos com idade ≥ 60 anos, dados epidemiológicos recentes indicam que o VSR é hoje reconhecidamente uma causa relevante de doença respiratória, sobretudo naqueles com mais de 70 anos e em adultos que vivem em presença de comorbidades pulmonares, cardiovasculares, metabólicas, situações de imunossupressão, doenças renais, hepáticas, entre outras. Nestes grupos a infecção pelo VSR aumenta o risco de ITRI, hospitalização, complicações cardiovasculares e morte, com carga comparável à da influenza, com o agravante de não dispormos de antivirais específicos para o tratamento. No Brasil encontram-se já disponíveis vacinas (RSVPreF3 e RSVpreF), que demonstraram eficácia consistente contra ITRI por VSR. Evidências de mundo real mostram que a vacinação contra o VSR neste grupo etário foi protetora, com uma efetividade de cerca de 80% na prevenção de hospitalizações e de 77% na redução de visitas ao serviço de urgência relacionadas ao vírus. Os dados de segurança indicam um perfil de reatogenicidade aceitável, embora exista um evento adverso raro, a Síndrome de Guillain-Barré (GBS), na ordem de menos de 10 casos por milhão de doses administradas, o que não altera a relação benefício-risco positiva, especialmente para os subgrupos de maior vulnerabilidade. Esses achados sustentam a oferta sazonal da vacina em idosos—com ênfase em idade ≥75 anos e em indivíduos maiores de 50 ou 60 anos com comorbidades como DPOC, cardiopatias, doença renal, câncer ou imunossupressão—integrada às demais intervenções respiratórias (influenza, COVID-19 e pneumococo) quando apropriado.

Incorporar essas estratégias de forma sazonal e oportunística (cada consulta como oportunidade), com foco nos grupos de maior risco, é passo chave para reduzir internações, UTI e mortalidade atribuíveis ao VSR.

Referências bibliográficas:

  1. McLaughlin JM, Khan F, Begier E, Swerdlow DL, Jodar L, Falsey AR. Rates of medically attended RSV among US adults: a systematic review and meta-analysis. Open Forum Infect Dis. 2022;9(7):ofac300. doi:10.1093/ofid/ofac300
  2. Woodruff RC, Melgar M, Pham H, et al; Respiratory Syncytial Virus Hospitalization Surveillance Network (RSVNET). Acute cardiac events in hospitalized older adults with respiratory syncytial virus infection. JAMA Intern Med. 2024;184(6):602−611. doi:10.1001/jamainternmed.2024.0212.
  3. WHO. Immunization to protect infants against RSV disease – Position paper, 2025. WER 100(22):193–218.
  4. Lassen MCH, et al. RSV Prefusion F Vaccine for Prevention of Hospitalization in Older Adults. N Engl J Med, 2025.
  5. Lee B, Trusinska D, Ferdous S, et al. Real-world effectiveness and safety of nirsevimab, RSV maternal vaccine and RSV vaccines for older adults: a living systematic review and meta-analysis. Thorax 2025; 80:838–848.
  6. Tanriover MD, Azap A, Cakir Edis E, et al. Respiratory syncytial virus (RSV) infections in adults: Current trends and recommendations for prevention – a global challenge from a local perspective. Hum Vaccin Immunother. 2025 Dec;21(1):2514357.
  7. Melgar M, Britton A, Roper LE, et al. Use of respiratory syncytial virus vaccines in older adults: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices – United States, 2023. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2023;72(29):793−801. doi:10.15585/mmwr.mm7229a4
  8. Dawood FS, Payne AB, McMorrowML. Assessing the real-world effectiveness of immunizations for respiratory syncytial virus. JAMA. 2024;331(21):1799−1800. doi:10.1001/jama.2024.5859

  1. Homem de 78 anos, DPOC moderada e diabetes mellitus tipo 2 de difícil controle, consulta no início do outono. No seu histórico vacinal recente, refere ter recebido as vacinas de hepatite B e dTpa 5 anos atrás, vacina Zóster, com duas doses, 1 ano atrás e vacina COVID-19, com a última dose há 2 anos. Qual estratégia é mais adequada para sua orientação, considerando efetividade, oportunidade e segurança?

  1. Durante uma consulta de pré-natal no mês de dezembro de uma gestante saudável, primigesta, com 29 semanas de idade gestacional, questiona-se a necessidade de receber a vacina de VSR. Considerando os objetivos da imunização materna, qual das alternativas abaixo contempla a melhor estratégia para otimizar a proteção contra a doença pelo VSR?

Participantes

COORDENADOR CIENTÍFICO E MODERADOR

Prof. Dr. Marco Aurélio Sáfadi
Diretor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria

ESPECIALISTA

Profa. Dra. Cecilia Roteli-Martins Médica Ginecologista. Pesquisadora da Faculdade de Medicina do ABC Membro da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da FEBRASGO
Profa. Dra. Rosemeri Maurici Médica Pneumologista. Professora Titular da Universidade Federal de Santa Catarina Coordenadora da Comissão Nacional de Vacinas da Sociedade Brasileira de Pneumologia

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Dr. Renato Kfouri
Prof. Dra. Rosana Richtmann

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Moderador: Prof. Dr. Marco Sáfadi Prof. Dr. Daniel Jarovsky Prof. Dr. Otávio Rizzi Coelho Filho

Conclusão

Coordenador científico: Prof. Dr. Marco Sáfadi

As opiniões e pontos de vista expressos não representam necessariamente a visão da Medscape, seus editores, consultores ou anunciantes.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: O texto de conclusão propõe comunicação centrada no paciente para enfrentar hesitação: recomendação médica forte, escuta qualificada, apresentação de evidências e oportunidade (coadministração e registro no ato). Postura neutra (A) e delegação passiva (B) reduzem adesão; apelos ao medo (D) pioram confiança e podem aumentar resistência.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: A vacinação materna visa proteger o lactente, e deve ser administrada durante a gestação para permitir transferência transplacentária adequada de anticorpos. Assim, vacinar já às 29 semanas está dentro da janela programática e antecipa proteção do recém-nascido no início da vida.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: Em adultos/idosos de alto risco que já receberam PCV13 + PPV23, a opção de uso da PCV20 fornece valência ampliada exatamente sobre os sorotipos emergentes (p. ex., 22F/33F/8) e mantém a vantagem T-dependente dos conjugados. Como o intervalo desde a última pneumocócica é >1 ano, não há restrição temporal. Em cenários atuais, não se recomenda rotineiramente nova PPV23 após PCV20, o que também simplifica o esquema. As opções A e D geram complexidade e reatogenicidade extras com ganho incerto; a B perde a oportunidade de ampliar proteção frente ao perfil epidemiológico de sorotipos prevalentes no local.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: Intervenções multicomponentes (oferta ativa e oportunística, recuperação de faltosos com lembretes, recomendação clara do profissional e redução de barreiras logísticas) superam ações isoladas e aumentam consistentemente a cobertura.

Resposta incorreta

Resposta correta: D
Justificativa: Em adultos e idosos, os eixos influenza, pneumococo, VSR, COVID-19 e zóster concentram o maior potencial de reduzir hospitalizações, complicações e óbitos, com dTpa (tétano/difteria/coqueluche) e hepatites como estratégias transversais conforme risco clínico/ocupacional. Essas prioridades estão alinhadas ao enfoque de curso de vida e às recomendações de calendários de adultos/idosos, porque se concentram nas infecções que mais geram carga de doença grave nessas faixas etárias e para as quais há vacinas com efetividade comprovada disponíveis em cenários do mundo real.

Resposta incorreta

Resposta correta: B
Justificativa: A recomendação da abordagem oportunística, com avaliação da carteira e oferta de vacinas em todo contato assistencial, ajustando sazonalidade e reforços às diretrizes, é sustentada por evidências de efetividade programática: A OMS (IA2030) e a OPAS orientam reduzir oportunidades perdidas de vacinação, instituindo checagem sistemática em cada encontro e oferta ativa de doses pendentes; essa estratégia é central no modelo de vacinação ao longo da vida e integra pontos de contato em atenção primária, consultas por intercorrências e hospital/ambulatórios. A alternativa B também garante conformidade com calendários nacionais (PNI) e sociedades científicas (p.ex., SBP, SBI, SBIm), que organizam reforços e sazonalidade no cuidado rotineiro.

Resposta incorreta

Resposta correta: B
Justificativa: Em idade ≥75 anos com comorbidades, a oportunidade é crítica. Levando em conta a sazonalidade dos vírus VSR e influenza, a coadministração é aceitável e otimiza cobertura; pode aumentar reatogenicidade, mas sem perda clínica relevante de efetividade.

Resposta incorreta

Resposta correta: C
Justificativa: A vacinação pneumocócica está associada à redução de hospitalizações por pneumonia, mortalidade geral e eventos cardiovasculares em idosos. Estudos de coorte e meta-análises mostram que idosos vacinados com PCV13 ou PPSV23 apresentam menor risco de hospitalização por pneumonia e redução significativa de mortalidade por todas as causas, além de menor incidência de infarto agudo do miocárdio. A justificativa biológica para esse efeito inclui a prevenção da descompensação inflamatória sistêmica desencadeada pela pneumonia, que pode precipitar eventos cardiovasculares agudos, como ruptura de placas ateroscleróticas e arritmias.

Resposta incorreta

Resposta correta: D
Justificativa: Integrar evidências locais de carga de doença e epidemiologia (como sorotipos e sazonalidade), recomendações independentes do Grupo Técnico Assessor Nacional de Imunização (NITAG), e alinhar-se para expandir plataformas de imunização além do primeiro ano de vida, permite maximizar o impacto populacional, garantir relevância epidemiológica e promover equidade na cobertura vacinal. Opções A, B e D ignoram esses pilares.

Resposta correta

Resposta incorreta

Resposta correta: B
Justificativa: Estratégias centradas no paciente — escuta ativa, empatia e validação das preocupações — aliadas à apresentação de dados claros e exemplos práticos, aumentam a confiança e a adesão, além de manter a vacinação como tema recorrente nas consultas

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