A pandemia de COVID-19 acelerou o desenvolvimento e a aplicação de plataformas vacinais inovadoras, como o RNA mensageiro (mRNA) e outras tecnologias adaptáveis, que já vinham sendo estudadas antes de 2020. As vacinas de RNAm apresentam o atrativo da viabilidade de produção de grande quantidade de doses em um espaço de tempo relativamente curto, permitindo também a possibilidade de rápida adaptação do RNAm contemplado nas vacinas às variantes do SARS-CoV-2 que eventualmente demonstrem capacidade de evasão da resposta imune induzida pelas versões iniciais do vírus.
O êxito dessas plataformas em induzir proteção contra o SARS-CoV-2 em tempo recorde representou um divisor de águas na história da imunização, oferecendo uma flexibilidade estratégica sem precedentes para a saúde pública. Além das vacinas de mRNA, plataformas como vetores virais, vírus inativados e proteínas recombinantes tiveram papel crucial no enfrentamento da pandemia de COVID-19, ampliando a disponibilidade global de imunizantes, garantindo alternativas em diferentes contextos epidemiológicos e logísticos, e contribuindo para a redução de hospitalizações e mortes.
Com a evolução contínua do vírus e a emergência de sublinhagens sucessivas, consolidou-se a necessidade de um modelo de vacinação sazonal, semelhante ao já empregado para influenza.
Esse conceito implica a adaptação periódica das formulações vacinais, alinhando-as às cepas predominantes e garantindo proteção sustentada contra formas graves da doença. Embora a eficácia contra infecção sintomática seja variável, os estudos têm demonstrado que as vacinas atualizadas mantêm elevada efetividade na prevenção de hospitalizações e óbitos, sobretudo em grupos vulneráveis.
Atualmente, recomenda-se a vacinação contra a COVID-19 em intervalos regulares para idosos, imunocomprometidos, pessoas com comorbidades específicas, gestantes, lactentes e profissionais de saúde, que apresentam maior risco de complicações.
A comunicação clara dessas recomendações aos pacientes é fundamental, já que a percepção de que a pandemia terminou pode induzir à falsa ideia de que a imunização deixou de ser necessária. Na realidade, o SARS-CoV-2 permanece em circulação, e as recomendações de proteção vacinal precisam ser periodicamente revisitadas para estarem adequadas ao momento epidemiológico e assim preservar seu impacto sobre a morbimortalidade da doença.
Dessa forma, a expectativa atual em relação às vacinas contra COVID-19 não tem como principal objetivo a prevenção da infecção, mas, sobretudo, a capacidade de oferecer proteção contra formas graves e fatais da doença, assim como suas complicações. Trata-se de uma mudança de paradigma que coloca a imunização como parte integrante da rotina clínica para grupos prioritários, consolidando-se como uma ferramenta essencial de saúde coletiva.
No vídeo a seguir, moderado pelo Dr. Marco Sáfadi com a Dra. Rosana Richtmann, serão discutidos dados sobre a epidemiologia atual de COVID no Brasil, além de recomendações de quem deve receber a vacina, quando e de que forma, visando oferecer a melhor proteção contra esse vírus potencialmente letal.
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